Alex Bogusky, sócio fundador da agência Crispin Porter & Bogusky - uma das principais agências de publicidade do mundo -, chocou o mundo publicitário ao anunciar em julho de 2010 sua saída da empresa e do mercado. Uma semana antes, durante o Festival de Publicidade de Cannes, Bogusky publicou em seu blog um post defendendo o fim da publicidade direcionada ao público infantil e esclarecendo as consequências desse tipo de propaganda.
Em entrevista ao Projeto Criança e Consumo, ele explica seu ponto de vista sobre a questão.
Qual é o principal problema da publicidade direcionada ao público infantil?
O principal problema é que crianças não são iguais a adultos. A questão não é somente que elas têm menos experiência que os adultos, mas também que elas ainda estão em desenvolvimento, o que lhes deixa indefesas frente às mensagens publicitárias. Um adulto pode avaliar uma informação baseado tanto na sua própria experiência, quanto na habilidade de pesar diferentes fatores ao mesmo tempo e avaliar as possíveis consequências. Uma criança não consegue fazer isso antes dos 12 anos, idade em que o hemisfério direito do cérebro está desenvolvido e possibilita que ela perceba as diferentes implicações de cada questão.
Você acredita que a autorregulamentação é suficiente para essa questão? Qual é a sua opinião sobre países que têm leis específicas quanto ao marketing direcionado a crianças?
Eu desafio a indústria a se autorregular, porque acredito que seria positivo para o mercado publicitário, por diferentes motivos. Seria visto como uma ação responsável e iria aumentar a moral do segmento e até mesmo possibilitar que a indústria recrutasse estudiosos sobre o assunto. Todos torcemos para que mais mercados comecem a se autorregular e a usar a precaução como princípio. Desde a indústria petrolífera até a publicitária, eu realmente acredito que a autorregulamentação é possível e que um dia vamos chegar lá.
Mas sou cético e não acredito que isso vá acontecer a curto prazo. Por isso, apóio as leis sobre marketing direcionado ao público infantil que estão em vigor em diferentes países. Eu as vejo da mesma maneira que vejo qualquer lei feita para proteger as crianças. Por exemplo, todos sabemos que crianças são menos capazes de estarem atentas ao trânsito, então nós temos leis que reduzem o limite de velocidade perto de escolas. É uma lei muito simples, que visa proteger nossas crianças. Os países que têm leis regulamentando a publicidade dirigida ao público infantil estão simplesmente fazendo a mesma coisa, protegendo aqueles que não têm experiência ou idade suficiente para se protegerem sozinhos.
Existem pessoas que acreditam que as crianças devem ser expostas a um ataque massivo de marketing desde pequenas, para aprenderem a se proteger. Isso é a mesma coisa que sugerir que nós devíamos acabar com o limite de velocidade perto das escolas para que as crianças aprendam logo a reagir ao trânsito em alta velocidade. Para mim, as consequências são graves demais.
Nós estamos mesmo vivendo uma crise de valores? Como essa maneira agressiva de fazer publicidades está impactando a ética profissional?
Eu não acredito que os nossos valores estão em crise. Mas, a nossa habilidade de transformar esses valores em ações foi comprometida. Nós fomos tão desencorajados pelo baixo alcance das nossas vozes no sistema político que estamos tendo problemas para usar esse novo poder que temos: as mídias sociais, para tomar ações diretas.
As grandes corporações precisam saber o que queremos e entender que, para conseguirem nosso dinheiro, elas têm que nos dar o que queremos. Muitas pessoas já me disseram que concordam que devemos proteger as crianças da publicidade, mas dizem que há tanto dinheiro envolvido no mercado publicitário que não acreditam que as coisas podem mudar um dia. Eu entendo essa atitude. Mas de quem é esse dinheiro de que estamos falando? É o nosso dinheiro coletivo. Então, se estamos dispostos a redirecionar esse dinheiro e tornar público que esse redirecionamento aconteceu por causa dos nossos valores, então uma mudança vai acontecer logo.
Isso dá trabalho, é verdade. Mas provavelmente não tomará mais tempo do que o que já gastamos lamentando sobre a inutilidade da nossa situação atual. Há um sistema que precisa ser mudado, e essa mudança será feita com a participação de todos. As empresas estão vigorosamente envolvidas na construção desse sistema, que ainda precisa ser moldado. Se os indivíduos também se envolverem efetivamente, ele será reformulado de uma maneira que apresente uma abordagem mais equilibrada entre os dois lados.
Leia o post de Bogusky sobre publicidade direcionada ao público infantil (em inglês):
http://alexbogusky.posterous.com/the-first-cannes-lion-for-not-advertising-at
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