• "Arte, religião e descobertas científicas são todas enraizadas na nossa capacidade de brincar"
    Entrevista com Susan Linn
    07/10/2009

    ESPECIAL A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
    Susan Linn é autora de diversos estudos sobre a infância. Uma das pioneiras no uso de ventríloquo como ferramenta terapêutica, é co-fundadora da Coalizão pelo Fim da Exploração Comercial Infantil, uma organização americana voltada para limitar os impactos da cultura do consumo nas crianças. Sobre esse tema, Susan publicou o livro “Crianças do consumo - A infância roubada”, traduzido e editado pelo Instituto Alana.

    Professora de psiquiatria na Escola Médica de Harvard e diretora associada do Centro de Mídia Infantil Judge Baker, em Boston, Susan já esteve no Brasil duas vezes para falar sobre os graves impactos do marketing no desenvolvimento infantil.

    Nesta entrevista ao Projeto Criança e Consumo, ela explica a importância do brincar e fala sobre o uso de novas tecnologias nos brinquedos e como o marketing utiliza esses dois aspectos para conquistar as crianças.


    Atualmente, muitas crianças são tratadas como adultos e muitos adultos são tratados como crianças. Por que isso acontece?
    Uma razão é que a indústria do marketing explora a tendência natural da criança de admirar e de querer imitar crianças mais velhas. Eles usam uma técnica chamada “marketing aspiracional”. Então, crianças de seis anos são alvo do mercado e tratadas  como se tivessem treze anos, as de treze como se tivessem dezoito, e assim por diante. Como resultado, as crianças estão caindo nas “armadilhas” da maturidade e usando roupas, ouvindo músicas e adotando uma linguagem como se fossem mais velhas do que de fato são. Mas não existem evidências que indiquem que o desenvolvimento emocional e social dessas crianças está no mesmo ritmo.


    Quais são as consequências de pular etapas do desenvolvimento infantil?
    Desenvolvimentistas acreditam – e eu concordo com eles – que passar com sucesso por cada fase do desenvolvimento depende de ter vivido plenamente a fase anterior. Voltando à sua pergunta anterior, uma das razões para sua observação de que os adultos são tratados como crianças é porque eles não tiveram chance de ter a experiência completa da infância. Quando a indústria do marketing foca crianças pequenas como se elas fossem adolescentes, nós eliminamos um período importante da infância – elas pulam do período em que ainda são toddlers (crianças entre um e três anos) para a adolescência.  Nós temos garotas da pré-escola preocupadas se estão gordas, se são bonitas, se vão conseguir um namorado. E todas essas preocupações são de adolescentes.

    Esse período que fica para trás, a meia infância (entre 3 e 10 anos), especialmente para as meninas, é um período em que a criança pode se concentrar em desenvolver habilidades, em aprender e em explorar o mundo sem total consciência de si. É um tempo de desabrochar e a sociedade de consumo trabalha para negar nelas essa fase essencial de crescimento e desenvolvimento.


    Qual a importância de brincar? Por que isso é tão essencial para as crianças?
    Ter contato com brincadeiras criativas é fundamental para o aprendizado, criatividade, para a solução construtiva de problemas e para habilidade de autocontrole. Arte, religião e descobertas científicas são todas enraizadas na nossa capacidade de brincar. É dessa forma também que as crianças aprendem a lidar com a vida e a encontrar significados.
    Brincadeiras criativas proporcionam uma janela dentro do coração e da mente das crianças – é dessa forma que ela expressa suas próprias verdades. Além do fato de serem alimentadas, terem uma casa e amor, não tem nada mais importante para a saúde durante a infância que brincadeiras criativas.


    Hoje, crianças brincam de pipa, mas também navegam pela internet. Como lidar como essa realidade e usar as tecnologias de forma produtiva com as crianças?
    Para usar as novas tecnologias de forma produtiva com as crianças, é necessário ter certeza de que há um equilíbrio na maneira como a criança usa seu tempo. Atualmente, existem muitas “telas” na frente de muitas crianças, vendendo coisas demais. Nos Estados Unidos, as crianças estão gastando 40 horas por semana com mídias depois da escola. Pelo mundo, assistir TV é a atividade mais comum entre as crianças. Isso está se tornando um hábito. Uma maneira de garantir que as crianças usem a tecnologia de forma produtiva é assegurando que elas não se tornem dependentes ou até viciadas. Temos que garantir que as crianças tenham tempo de brincar ao ar livre e interajam com a natureza.Precisamos ajudar os pais a analisar quando apresentar essas mídias às crianças e a que tipo de conteúdo estão expostas. A Academia Americana de Pediatria recomenda nenhuma exposição a TVs e computadores antes dos dois anos de idade. Não há evidência concreta de que essas mídias são educativas para bebês. Estudos mostram que, quanto mais bebês e crianças que estão na pré- escola são expostas a essas mídias, menos tempo elas gastam em duas atividades fundamentais: brincadeiras criativas e interação com os pais.  A Academia Americana de Pediatria ainda recomenda limitar a quantidade de tempo que as crianças mais velhas gastam em frente às telas e que os pais devem monitorar o que elas veem. Nós precisamos encontrar uma maneira de educar os pais, e futuros pais, sobre prejuízos e benefícios das mídias eletrônicas e ajudá-los a fazer escolhas positivas para seus filhos.


    No seu livro "The Case for Make Believe" (ainda sem tradução no Brasil), há uma crítica aos brinquedos eletrônicos. Como eles podem contribuir positivamente ou negativamente?
    Para crianças jovens, os melhores brinquedos são 90% crianças e 10% brinquedos. Os brinquedos que encorajam a brincadeira criativa são aqueles que estão lá parados até que a criança faça alguma coisa com eles. Os brinquedos verdadeiramente criativos requerem esforço. Um brinquedo que anda, fala, dança, faz barulhos ou se move ao apertar de um botão encoraja passividade, não criatividade. Brincar com jogos de computador ou navegar na internet pode ser divertido, mas para crianças pequenas, os brinquedos eletrônicos tendem a diminuir mais a criatividade do que estimulá-la.
    Se queremos que as crianças se tornem adultos ativos, curiosos e criativos, precisamos proporcionar a elas logo cedo um contato ativo com o mundo, reagindo ao que é apresentado a elas.


    Quais são os fatores determinantes para a diminuição das brincadeiras criativas?
    Nos Estados Unidos, há muitos fatores que contribuem para isso. Os pais têm mais medo de deixar os filhos brincarem fora de casa. Muitas crianças saem da escola e precisam fazer as lições de casa ou praticar esportes. As políticas nacionais de educação têm diminuído e até eliminado as brincadeiras da escola – até mesmo no jardim de infância. O maior fator é a crescente entrada de mídias eletrônicas e do marketing na vida das crianças. Estudos mostram que, internacionalmente, a atividade mais comum entre as crianças é assistir à televisão. Os brinquedos mais vendidos são também os eletrônicos, ligados a programas de mídias ou ambos. As pesquisas também sugerem que crianças brincam com menos criatividade quando os brinquedos são baseados em características de mídias e programas.


    Como os investimentos em marketing afetam as crianças e seu desenvolvimento?
    O marketing é um fator que está em muitos dos problemas que as crianças encaram hoje: obesidade, transtorno alimentar, sexualidade precoce, violência, estresse familiar, valores materialistas e a erosão das brincadeiras criativas. Tudo isso está ligado ao marketing. Marketing não é a única causa de todos esses problemas, mas é um fator presente em todos eles.


    Qual a diferença entre brinquedos estruturados e não-estruturados?
    Brinquedos estruturados são baseados em características de mídias, que só podem ser usados de uma maneira e que requerem o mínimo de esforço das crianças. Eles limitam as habilidades das crianças de interagir com o brinquedo, de imprimir suas características pessoais nele, de usar o brinquedo como forma de se expressar e de conquistar uma sensação de domínio sobre seu mundo.

    Com brinquedos não-estruturados, os “valores da brincadeira” estão muito mais na criança. Desta forma, a criança precisa confiar em seus próprios recursos para conduzir a brincadeira. Blocos de madeira são um exemplo de um brinquedo não-estruturado.
     

    Nos Estados Unidos, o consumo é muito mais significativo que no Brasil. O consumismo é um problema maior para as crianças americanas?
    Na medida em que as nações se tornam mais ricas, mais inseridas na cultura do consumo, menos propensas ficam para regular o marketing voltado a crianças. Os problemas causados pela comercialização para crianças certamente vão crescer nos países emergentes. Não estou em posição de julgar se o consumismo é um problema maior para as crianças americanas do que para as brasileiras, mas eu sei que está crescendo no Brasil a preocupação com impacto do marketing para as crianças e, através do Projeto Criança e Consumo, o Instituto Alana, há um grande trabalho de aumentar a consciência e de fomentar a vontade política para abordar o problema.


    ENTREVISTAS DESSA EDIÇÃO ESPECIAL
    Adelso Murta Filho
    "O quintal é o território encantado da infância"

    Adriana Friedmann
    "As crianças estão sendo educadas por um outro mundo que foge aos muros da escola"

    Ana Lucia Villela
    "O apelo emocional do consumo atinge todo o mundo"

    Lydia Hortélio
    "Sonho com o tempo em que poderemos falar em integração nacional através da cultura da criança"

    Paulo Tatit
    "É importante que a criança seja impregnada com o que há de melhor da sua cultura"

    Susan Linn
    "Arte, religião e descobertas científicas são todas enraizadas na nossa capacidade de brincar"

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