ESPECIAL A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
Paulo Tatit tem fãs grandes e pequenos. Há quinze anos, ele criou o selo Palavra Cantada ao lado da cantora e compositora Sandra Peres, e, desde então, produz música de boa qualidade para crianças. A intenção é fazer canções modernas que dialoguem com os mundos infantil e adulto. Não por acaso, as músicas do Palavra Cantada já fazem parte do repertório de muitos pais e educadores Brasil afora.
Nesta entrevista ao Projeto Criança e Consumo, o artista diz perceber uma preocupação cada vez maior com a importância do brincar, mas que grande parte da produção cultural infantil ainda é muito pouco criativa. “Quem está no comando não tem noção do que é uma criança. É o tipo de pessoa que rompe com a infância e que fica projetando coisas que não tem nada a ver.”
O Palavra Cantada tem 15 anos de história. O que levou você a trabalhar com música para criança?
Quando decidimos fazer um disco para crianças, foi por um interesse bem musical, de criar um repertório de canções de ninar que tivessem mais a ver com os dias de hoje. E acabamos fazendo uma música que fala com a criança e com o adulto ao mesmo tempo. Continuamos nessa estrada porque tivemos uma resposta muito boa do público e da crítica. Passou a ser quase um dever continuar fazendo música infantil.
Uma das dificuldades de produzir cultura para criança é entender o mundo lúdico delas. Como é o processo de criação de vocês?
Tem gente que faz uma ruptura muito grande com a infância. Mas, para mim, esse processo foi diferente, não sei dizer porquê... Talvez porque os artistas, de modo geral, sempre voltam à infância. Esse lado lúdico da vida é mais intenso, porque são pessoas que tem um fio condutor que não tenta esquecer o passado. O passado faz parte de tudo. Acho que isso acontece comigo, com a Sandra [Peres], com os meus parceiros, como o Arnaldo Antunes. Mantenho vivo aquele jeito da criança de achar graça em tudo e visito isso de vez em quando.
Outro aspecto importante é observar a criança. Posso estar olhando meio de rabo de olho, fazendo outra coisa, mas a minha atenção vai naturalmente para ela. Então, eu vejo caretas, ouço comentários engraçados, vejo se a criança está feliz, se está meio introvertida. Com isso, tenho mais facilidade de me comunicar com ela. Se prestarmos atenção em uma festa de família, tem gente que nem sequer olha para as crianças. “Aquilo é coisa de criança”. A pessoa coloca uma barreira e não se visita mais. E na minha família isso é muito diferente. Então, acho que o meu trabalho e meu interesse pelo mundo infantil vêm disso, de nunca ter rompido totalmente com a infância.
E, na sua opinião, qual é o problema de romper com a infância? Você acha que nós vivemos em uma sociedade cada vez mais distante desse mundo das crianças?
Eu discordo dessa visão de que a nossa sociedade está se distanciando do lúdico. Já foi pior. Um pouco do sucesso do Palavra Cantada vem de algo que aconteceu na nossa sociedade, pois hoje há muitos pais interessados em acompanhar as atividades mais sutis das suas crianças. Meu pai queria que a gente fosse à escola. Hoje, o pai está interessado no que o filho escuta, de que tipo de filme gosta.
Mas isso não está restrito a um público seleto?
O público do Palavra Cantada é bem diverso. Inclusive, um dado importante é que professores da rede pública usam nossa música como fonte de educação, em sala de aula. Acho que, de modo geral, as pessoas começam a perceber a importância do brincar, que o brincar vale alguma coisa. Na minha época, brincar não valia nada. Depois começaram a teorizar, “isso aqui traz sociabilidade, aprimoramento psicomotor”... Hoje vivemos um momento de reflexão de algo que não era para pensar, que simplesmente acontecia.
Há uma preocupação do Palavra Cantada com o brincar, de fazer uma representação para a criança, de interpretar?
Muitas músicas levam a uma brincadeira. O próprio arranjo muitas vezes é palpável e te convida a tocar junto, a dançar. Eu sempre trabalho duas linhas: fazer uma música cujo arranjo é mais delicado, com poucos elementos para que a criança perceba os sons dos instrumentos; e um arranjo mais preenchido, que pode ser escutado no rádio e na televisão. Então, tem aquele disco que eu imagino a criança ouvindo no quarto, prestando atenção no sax, no violão, no baixo. Depois tem o disco para ouvir em ambiente de festa, com uma música mais complexa para a criança, com todo mundo tocando ao mesmo tempo. Esse tipo de disco perde em ludicidade musical pura dos instrumentos, mas ganha na ludicidade de canto e dança.
Li uma entrevista em que você diz que formou o Palavra Cantada porque sentiu um vazio muito grande nas músicas infantis. Mas, na década de 70 até o início dos anos 80, havia uma produção cultural muito rica para esse público. O que aconteceu nesse meio tempo?
Muitas vezes há uma projeção do mundo do adulto para criança, de querer representar uma infância idealizada. Por exemplo, é típico pensar que é preciso fazer com que a criança fique eufórica. Hoje, todo programa de TV e as músicas de TV são um pouco assim, fora que as versões traduzidas não têm rima nenhuma, não tem trabalho artístico. E as crianças estão ouvindo direto, porque TV não é páreo para gente. Não dá para competir. Embora a nossa música fique na cabeça das crianças, elas são muito mais expostas à programação televisiva. E eu duvido que elas guardem uma música dessas de programas infantis mais de um mês. Acho isso muito ruim, de ter que ser sempre uma coisa eufórica. Parece que a criança tem que estar sempre feliz, que não pode ter introspecção, não pode ter mundo interior, não pode ter subjetividade... Tem que estar sempre pulando para o adulto ver. Acredito que o povo é que precisa cuidar da educação das suas crianças. Eu adoro música americana, meus heróis são ingleses e americanos, mas para as minhas crianças quero passar outra coisa. Não gosto desse conteúdo do Hi-Five e do Barney [ambos programas infantis veiculados no canal Discovery Kids]. Na adolescência é diferente, porque já somos capazes de fazer nossas escolhas. É importante que a criança pequena, até 10 anos, seja “impregnada” de sua cultura, com o que há de melhor da cultura.
Por que isso é importante?
A mensagem que a criança recebe não passa por reflexão, nem opinião. Se ela só tiver acesso a essa música americanizada, tipo Hi-Five e Barney, ela será impregnada de música da pior espécie, e isso fica dentro dela, não tem filtro. Muito melhor que a criança ouça um tipo de música que tenha a ver com o coração do Brasil, como as que vêm da África, da viola, do campo, do caipira. A nossa tentativa [do Palavra Cantada] é aprofundar o que é brasileiro, genuíno, no sentido de criar essa raiz na criança. Depois, com essa raiz criada, ela pode ouvir qualquer coisa, mas ela tem aquilo que é dela, do povo dela. Uma vez, tentamos penetrar no mercado de Portugal e percebemos que não havia espaço. Era como se os portugueses dissessem “vá cuidar de suas crianças lá, que daqui cuidamos nós”. A gente mandou tudo de melhor que tínhamos e só recebemos não, não e não. “Vocês com suas deformações de linguagem e suas músicas miscigenadas” [risos].
Por que a produção cultural de massa é tão empobrecida?
Porque quem está no comando não tem noção do que é uma criança. É o tipo de pessoa que rompe com a infância, que fica projetando coisas que não tem nada a ver. Os caras que estão no comando da TV brasileira não têm preparo. E quem tem preparo, não tem o perfil de ser dono de emissora, que é algo muito agressivo. Precisa ter um grau de agressividade, de competição, que não tem nada de infância. Então, a Globo sabe fazer novela e jornal muito bem. Na hora de fazer um programa infantil, fica tudo perdido. Ou então esses canais de TV a cabo para criança: como pode uma mesma emissora transmitir uma coisa maravilhosa como Charlie e Lola ou Pocoyo e, ao mesmo tempo, passar o Barney, insuportável, e esse Hi-Five [todos veiculados na Discvovery Kids]? A mesma emissora mistura coisas absolutamente diferentes porque, na verdade, está interessada na audiência. A única emissora que começou bem, que tinha gente lá dentro que entendia de criança, foi a TV Cultura, mas também já se perdeu um pouco. O Cocoricó, por exemplo, é um programa que tem tudo para dar certo, mas o Julio, como herói, é um cara meio bobo. Fiquei meio decepcionado quando assisti com minha filha. O Julio tinha que ser um cara mais esperto [risos]. Já o Pocoyo, que é uma produção de massa, é maravilhoso, inteligente.
Então, você acredita que a produção de massa pode ter boa qualidade?
Algumas dessas grandes produções para criança da Disney e da Pixar são muito boas. Minha filha não vai ao cinema. Mas eu e minha mulher vamos. O Era do Gelo 3 em 3D, por exemplo, é encantador, porque eles não ficam explorando esse lado nervoso, frenético. Tem um floquinho de neve que quase esbarra no seu nariz... O roteiro é maravilhoso, as idéias são boas. Não dá para tachar como se fosse tudo a mesma coisa.
Entrevistei uma psicóloga de Harvard que fala muito sobre criança sendo tratada como pequeno adulto, e adulto como uma criança, principalmente pelo marketing. Existe uma crise de valores?
Acho que quando o adulto constrói algo para a infância, tenta criar uma realidade artificial, com as crianças todas felizes, como se não tivessem visto o pai gritando com a mãe ou a professora que chegou chorando na escola ou a babá impaciente. É como se a criança não estivesse exposta a um monte de coisas que ela não entende. Uma criança de quatro anos assiste à televisão durante o dia e acaba vendo, no comercial da novela, uma pessoa chorando, outra apontando um revolver. Aquilo é suficiente para ela ter uma noite mal dormida. É um mundo muito complicado. O que está se passando dentro de uma criança não são só flores.
ENTREVISTAS DESSA EDIÇÃO ESPECIAL
Adelso Murta Filho
"O quintal é o território encantado da infância"
Adriana Friedmann
"As crianças estão sendo educadas por um outro mundo que foge aos muros da escola"
Ana Lucia Villela
"O apelo emocional do consumo atinge todo o mundo"
Lydia Hortélio
"Sonho com o tempo em que poderemos falar em integração nacional através da cultura da criança"
Paulo Tatit
"É importante que a criança seja impregnada com o que há de melhor da sua cultura"
Susan Linn
"Arte, religião e descobertas científicas são todas enraizadas na nossa capacidade de brincar"