• "As crianças estão sendo educadas por um outro mundo, que foge aos muros da escola"
    Entrevista com Adriana Friedmann
    07/10/2009

    ESPECIAL A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
    Adriana Friedmann ensina: o brincar é fundamental ao ser humano, e não apenas à criança. Co-fundadora da Aliança pela Infância no Brasil, é educadora e pesquisadora do brincar, tendo publicado diversos livros sobre o tema.

    Nesta entrevista ao Projeto Criança e Consumo, Adriana afirma que a criança contemporânea, ao contrário do que muitos acreditam, brinca sim e está cada vez mais criativa. Para ela, o que falta é um diálogo mais efetivo dos adultos com o mundo lúdico infantil. “Há três décadas temos falado em um tom de saudosismo. Está na hora de a gente entender mesmo do que as crianças estão brincando”, diz.


    Qual a importância do brincar para o desenvolvimento infantil?
    A partir de pesquisas, estudos e de muitos anos trabalhando com formação e com o aprofundamento nessa área, vejo que o brincar em si é uma das linguagens essenciais do ser humano. Um recém-nascido se expressa por meio de gestos, de movimentos do corpo e do brincar. Claro que depois vem a expressão plástica, a arte, a expressão musical, a expressão verbal, porém o brincar permanece como um meio pelo qual as pessoas , principalmente as crianças, se expressam e conhecem o mundo a sua volta.


    Então, o brincar é importante para todo o mundo?
    Sim, para todo o mundo, embora, quando se fala com um adulto sobre o brincar, ele tem um olhar infantil para a situação. Mas o adulto brinca, por exemplo, quando se veste de manhã, com as cores das roupas, quando decora a casa, com o que coloca no prato na hora das refeições... No fundo, há uma brincadeira, uma ludicidade, no nosso cotidiano. Muitos dos hobbies dos adultos têm o prazer do lado do lúdico.

    É possível definir o brincar?
    Existem muitas definições. Eu sempre digo para os meus alunos que as definições são tão abrangentes como seres humanos. O brincar foi estudado por filósofos, psicólogos, educadores, antropólogos, historiadores, um leque enorme de especialistas. Eu enxergo o brincar como uma linguagem ou forma de comunicação e expressão do ser humano, expressão da essência do ser humano, mesmo que ele não tenha consciência – como é o caso de todas as crianças, que brincam sem saber que, no fundo, estão se mostrando ao mundo. Nós, adultos, é que não enxergamos e muitas vezes não compreendemos essa linguagem. Hoje, um dos grandes desafios para o adulto é tentar compreender o que a criança diz quando brinca de faz de conta, quando brinca com o corpo no jogo de capoeira, quando canta, quando toca instrumentos.


    Alguns especialistas afirmam que a brincadeira precisa ser estimulada na criança. Você concorda?
    Alguns naturalistas dizem que o ser humano nasce sabendo brincar. O Schiller [Friedrich Schiller], filósofo alemão, dizia que o ser humano somente é humano quando brinca e é humano porque brinca. Essa é uma linha que diz que as pessoas nascem sabendo brincar. E tem outra linha, hoje muito discutida, que diz que o ser humano aprende a brincar. Eu tenho um olhar diferente. Vejo um diálogo entre as duas coisas. Tanto o ser humano já nasce com este potencial do lúdico, do brincar e da brincadeira, quanto ele também precisa aprender a brincar. Por exemplo, o bebê chega ao mundo e o primeiro grande brinquedo é o próprio corpo e o corpo da mãe. Ele já nasce com esse instinto lúdico. Mas é claro que, para a criança manipular objetos, brincar e dar um sentido a essa brincadeira, muita coisa precisa ser ensinada.


    E qual a diferença entre o brincar e a brincadeira?
    A brincadeira é um tipo de atividade lúdica não estruturada que se perpetua e é transmitida de uma geração para outra de forma oral, assim como os contos de fadas e os contos populares. Brincadeiras como amarelinha, jogo das pedrinhas, pipa sempre existiram, desde a antiguidade, e elas continuam existindo no mundo inteiro. De uma região para outra, cada grupo apresenta variações, mas a estrutura não muda ao longo da história e da geografia do planeta. É um fenômeno muito singular, mas há uma liberdade na brincadeira, uma flexibilidade em que existe uma regra, mas tudo bem se, ao invés de fazermos com uma pedrinha, usarmos uma bolinha. Depois existem os jogos, que são estruturados. Temos os jogos universais, como o futebol, que tem regras fixas universais, e o jogo de xadrez, gamão, jogos de tabuleiro. Essas são as sutilezas desses conceitos do fenômeno lúdico do brincar. No fundo, acho que o que interessa é o espírito que perpassa essas situações.


    Você mesma fez esse questionamento: como é possível ter esse fenômeno no mundo inteiro, atravessando gerações e gerações?
    É um fenômeno muito interessante porque faz parte do ser humano, das culturas locais e existe no mundo inteiro. É um pouco como são os contos e os mitos que, por algum fenômeno universal, são transmitidos e perpassam os livros, os manuais. Foi criado em Belgrado, na década de 1970, um projeto universal para o registro das brincadeiras tradicionais, para que elas não fossem perdidas na era da tecnologia. Eu entrei nesse projeto representando o Brasil. Só que a amarelinha continua sendo a amarelinha, a pipa continua sendo a pipa... ela pode funcionar com diferentes materiais, mas o que é importante é a ideia de que a pipa tem que voar. O registro das brincadeiras populares é um documento importante e, ao mesmo, dúbio porque o que interessa é que as crianças brinquem. De qualquer forma é um patrimônio da humanidade.


    Você fez parte de um projeto parecido com esse na Folha de São Paulo. Que experiência teve com o Mapa do Brincar?
    O Mapa do brincar foi muito importante nesse momento, no fim da primeira década do século 21. Há três décadas temos falado em um tom de saudosismo, “vamos trazer as brincadeiras tradicionais”, porque ficamos um pouco assustados com essa invasão do eletrônico, da TV, do videogame, e há um movimento de ensinar às crianças brincadeiras muito populares. De repente, vem essa iniciativa do jornal Folha de São Paulo. Está na hora de a gente entender mesmo do que as crianças estão brincando, e nós adultos precisamos aceitar e mergulhar um pouquinho nesse universo que não conhecemos. A gente quer ensinar muita coisa, mas as crianças estão nos dizendo outras. As crianças estão muito criativas e inventam nomes para as brincadeiras. Elas juntam brincadeiras que conhecem, que aprenderam e recriam, re-significam.


    Qual foi a principal descoberta do Mapa do Brincar?
    As crianças, na verdade, adaptam as temáticas da vida delas às brincadeiras que fazem. E elas trazem perfis das pessoas que estão a sua volta e um pouco da cultura delas. Para o Mapa do Brincar, nós fizemos uma classificação e criamos uma chamada “outras brincadeiras”. Essas outras brincadeiras são justamente essas re-significações, invenções. É muito singular, não são mais aquelas brincadeiras que a gente conhecia. Há novos repertórios. As crianças estão brincando, mas as crianças estão dando personalidade às brincadeiras, personalidade da cultura local influenciada pela cultura global. Para o projeto, foram feitos dois pequenos documentários sobre crianças no Ceará ensinando a fazer alguns brinquedos. Aqueles meninos aprendem com o entorno deles, com o ambiente, ou seja, com os materiais que eles têm. Nós temos a tendência de achar que, se não ensinarmos a brincar, eles não brincam; se não dermos o material, eles não acham. E não é assim. O grande tema dessa geração é criatividade. E não veio só material de criança que está na escola, mas justamente de quem está fora da escola, de quem está na ONG, na comunidade, no bairro.


    De que forma o distanciamento da natureza impacta a criatividade da criança?
    Há dois anos, a Folhinha [caderno infantil do jornal Folha de S.Paulo] fez um levantamento com as crianças que se chamava “Ser criança hoje é...” As crianças tinham que escrever sobre vários temas. Eu montei uma equipe de pesquisa e nós estamos trabalhando em cima desse material agora. Esse trabalho é um pouco diferente do Mapa do Brincar porque as crianças tiveram muita liberdade para falar do que queriam – medos, natureza, família, bichos, brincadeiras. E temos tido algumas surpresas, pois as crianças estão muito assustadas com o que está acontecendo com a natureza, com o que as gerações anteriores estão deixando para elas, com o aquecimento global, com a violência. Elas estão trazendo alguns pedidos de socorro nesses depoimentos. Uma chuva, uma ventania, e as crianças, principalmente nos centros urbanos, se sentem inseguras, querem ficar resguardadas. Em países em que o clima é muito frio, as crianças saem e brincam na neve. Aqui não, esfriou, vai todo mundo para dentro de casa. Acho que há o medo porque não há contato. Mas não é porque essas crianças não têm esse contato que elas não são criativas. Não é porque têm contato com computador e videogame que não são criativas. Acho que há um engano com alguns conceitos. O que acontece hoje é um consumismo muito desenfreado com relação ao brinquedo. Por que? É propaganda, é porque o amigo tem. Mas, no fundo, esse “eu quero” é uma forma de preencher um vazio mais profundo, que passa pelo afetivo, pela falta da presença do pai e da mãe. A Renata [Meirelles, educadora] tem uma pesquisa muito interessante. Ela vai lá para as comunidades ribeirinhas, onde as crianças pegam galhos de árvore, fazem um pião e o pião se perde na mata, e no dia seguinte começa tudo de novo. Não tem o mesmo apego que a nossa criança, de que aquilo é um tesouro. Mas é um tesouro que está imbuído de um significado mais profundo. Não é somente o de ter aquele objeto, mas de que naquele momento a mãe deu atenção porque comprou. Eu vou um pouco além. Quando vejo a criança brincar com arma ou de uma forma que pode nos parecer violenta, ela está expressando uma coisa muito profunda dela. É uma angústia para o adulto ver aquilo. Então, ficamos do outro lado e falamos “apaga isso”, “isso não é bom para você”.


    Nesse sentido, há uma falta de diálogo do adulto com a criança?
    O que precisamos fazer é mergulhar no mundo delas. As crianças entram em um universo de fantasia que não é mais aquela fantasia que vivenciamos na nossa infância, mas que tem coisas interessantes e positivas. As crianças têm regras próprias, valores próprios e, é claro que nós precisamos ensinar, mas também temos que aprender com eles. Estamos em um momento do trabalho com a infância em que precisamos ouvir as crianças a partir da suas linguagens.


    Quando o brincar começou a fazer parte da educação formal?
    Há registros arqueológicos que indicam que o brincar existe desde que o homem é homem e, antigamente, os adultos brincavam e se misturavam com as crianças. Hoje, o brincar entra na escola como um instrumento de ensino e se pedagogizou. O prazer de brincar ainda fica para a hora do recreio. E o que vem acontecendo? As gerações dos últimos 20 anos são de crianças que não ficam quietas, não prestam atenção. O brincar como instrumento de ensino pode virar uma obrigação e, paralelamente a isso, o tempo de recreio vem diminuído a cada ano. As crianças estão ficando mais reprimidas e com menos tempo para se descobrirem.


    Qual seria o modelo mais interessante para o desenvolvimento da criança?
    Não há um modelo fechado, mas sim situações mais espontâneas e situações direcionadas. A situação espontânea é um momento em que o educador tem a oportunidade de registrar reações, de perceber o potencial da criança, o interesse, a necessidade. No meu entender, tem de haver, em todas as disciplinas e até em todos os graus, um equilíbrio entre as duas situações e sempre levar em conta a adequação conforme o estágio de desenvolvimento daquela criança. Conhecer como se dá esse processo de desenvolvimento cognitivo, emocional e físico é muito importante para adequar as propostas.


    Houve, nos últimos anos, um aumento da cobrança em cima da criança?
    A pressão vem do mercado para as universidades, das universidades para o ensino médio e para o ensino fundamental. Nos últimos 15 anos, há um aumento enorme no índice de criança hiperativa, já taxada, medicada, encaminhada. O que está errado? Primeira coisa, criança com agendas extensas, fazendo esporte, arte, línguas. Temos que olhar também para as doenças, crianças com dor de cabeça e de barriga, depressão. Algumas se sentem muito pressionadas e outras, que vivem uma realidade diversa, tendo de trabalhar para ajudar no sustento da família. E, dependendo da região e do trabalho, precisam parar de ir à escola para ajudar na época da colheita. Muitas vezes não compreendemos como funciona aquela cultura, por isso os nossos olhares precisam ficar um pouco mais relativizados nesse sentido. As crianças, de um modo geral, estão sendo educadas por um outro mundo, que foge aos muros da escola, e é para isso que os educadores precisam reagir. As ONGs, a educação não formal, tem tido uma resposta muito mais adequada em muitos casos.


    Isso tem a ver com uma crise da sociedade de consumo?
    Sem dúvida. No Ceará, por exemplo, há boas experiências com crianças, como a experiência do Instituto da Infância, que leva o brincar para comunidades rurais. Casa de palafita, com antena de TV em todas elas, a natureza pé no chão, as riquezas locais, e  as crianças muitas vezes não dão valor. Elas valorizam as salas fechadas cheias de brinquedos industrializados, que não fazem parte daquele lugar, mas ao mesmo tempo são da cultura do mundo, porque o mundo está globalizado. Há um diálogo dessa cultura local lúdica com a cultura que vem via meios de comunicação. Então, o educador da cidade almeja natureza e quem está na natureza almeja o que está na cidade.


    Você é uma pessoa otimista em relação à situação atual da infância?
    Sou otimista sim. Na década de 80, quando começamos a falar da importância do brincar, não havia interlocução. Hoje, nós temos muitos formadores, temos o brincar nas leis, o brincar na escola, o brincar como direito, os fabricantes de brinquedos com a consciência de que o que eles estão fabricando é especial, que tem que ter um cuidado com o material, com a segurança. Sinto que, ao mesmo tempo em que a situação está tão caótica, há um contraponto de um grupo muito grande. Há um potencial que está perpassando todas as instâncias para humanizar a era da tecnologia.


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