• "O quintal é o território encantado da infância"
    Entrevista com Adelso Murta Filho
    07/10/2009

    ESPECIAL A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR
    Adelso Murta Filho é o nome de batismo, mas o apelido de infância acompanha Adelsin até hoje. Ainda menino, na periferia de Belo Horizonte, construía seus próprios brinquedos. Esse hábito virou profissão e motivou pesquisas sobre os brinquedos que os meninos do Brasil inventam.

    Nesta entrevista ao Projeto Criança e Consumo, o artista plástico afirma que as crianças só vivem o brincar por completo quando participam de toda a criação do brinquedo, desde sua construção até o ato de brincar.




    Por que o interesse em pesquisar os brinquedos inventados pelas crianças?
    Fui um menino de periferia e sempre fiz meus próprios brinquedos. Cresci e cursei Artes Plásticas e Educação Artística para poder trabalhar com crianças em escolas e em projetos sociais. Logo no começo eu sentia que havia uma distância entre a linguagem das crianças e a minha, por mais que eu procurasse ser um bom professor. Quando participei de um curso, durante o festival de inverno da Universidade Federal de Minas Gerais, com a Lydia Hortélio, descobri que existia um movimento da infância e uma cultura própria das crianças. Aquilo foi uma revelação muito maravilhosa. Comecei a observar mais a crianças nos movimentos espontâneos delas e aprender mais do que ensinar. Já se passaram 23 anos desde que comecei essa observação.


    A partir de quando você começou a pesquisar os brinquedos?

    Minha pesquisa foi feita de maneira informal. Quando eu viajava e passava pelos festivais culturais no interior em Minas Gerais, fazia oficinas para professores em diversas cidades. E levava esse trabalho para outros estados também e, em cada oficina que eu fazia com os professores, recolhia sinais, indicações da cultura e da infância daquele lugar. Saía também procurando as crianças brincando pelas cidades que eu visitava para reconhecer quais eram os movimentos espontâneos das crianças daquele lugar. Essas pesquisas me estimularam a criar um projeto de casinhas de cultura, que eram núcleos de fortalecimento de valorização da cultura própria dos lugares, com ênfase na cultura da infância. Essas casinhas viraram fontes de informação dos brinquedos e das brincadeiras do povo daquela região.


    O que mais chamou atenção nas pesquisas?
    Achei interessante ver que há um movimento comum aos brinquedos em vários lugares, mas cada lugar tem uma característica própria, usa materiais próprios . Por exemplo, no Maranhão, tem uma foto interessante de um pai que fez um brinquedo com miolo do buriti, uma fruta típica. O brinquedo tem dois bonequinhos que batem um pilão. Esse mesmo brinquedo é encontrado em vários lugares do mundo, mas com materiais diferentes. O que mais me encanta são os carrinhos que eles mesmos fazem, com as rodas de sandália, com sabugo de milho ou galhos que têm formato de rodinha quando secam.


    As crianças estão perdendo o contato com a natureza?
    Infelizmente, sim. A cultura das cidades tem distanciado as crianças da cultura da natureza. Mas toda chance que a criança tem de voltar para natureza ela aproveita. O adulto tem que guiar as crianças para a natureza porque, cada vez mais, cria-se o hábito de ficar muito tempo sentado. Na minha comunidade, eles brincam com areia, árvores, pedras, água, sementes. A natureza e a criança são uma coisa só.


    E o que você acha que elas perdem com esse distanciamento?
    Perde tanto! As crianças hoje estão lidando demais com duas dimensões: papel e tela dos aparelhos. Na natureza tudo é 3D, tem textura, profundidade, cheiro. Com a distância da natureza, ficamos menos expressivos. E depois, menos serenos. A cidade deixa a gente muito áspero, “cimentado”. As relações de quem cresce na natureza são mais amenas. Onde eu moro raramente vejo um menino brigando com outro. Eles têm divergências, mesmo os adultos ficam com raiva um do outro, mas não se vê aquela aspereza, tensão e briga, muito comuns nos ambientes urbanos.


    Apesar desse distanciamento, as crianças continuam inventando brincadeiras?
    As meninas da cidade têm chamado atenção porque elas inventam muitas brincadeiras com as mãos. Sempre inventaram e continuam inventando.O impulso de brincar ainda é o mesmo, os espaços é que estão ficando cada vez menores. Assim, meninas e os meninos estão cultivando as brincadeiras que podem ser brincadas em pequenos espaços. O que é lamentável é que o brinquedo eletrônico toma muito tempo da infância. Se o videogame e o computador fossem parte de um conjunto maior, apenas mais um brinquedo da infância, aí tudo bem. Mas o problema é a monocultura. Se fosse só peão, só papagaio, só elástico, também seria ruim, pois a infância é feita para ser vivida nos seus muitos gestos.


    Você vê algum benefício nesses brinquedos industrializados, eletrônicos?
    As crianças têm um poder de transformação tão grande que elas fazem usos que a gente não imagina com os brinquedos. Eles vão brincando, quebrando e transformando o brinquedo e ainda reaproveitam as peças. Mas os brinquedos plásticos trazem a forma muito pronta.

    Já os brinquedos construídos pelas crianças não. Esses brinquedos têm uma forma sugerida, não são uma copia fiel. Têm uma expressão diferente. É uma pena que as crianças trabalhem só com imagens realistas. A fantasia acaba sendo prejudicada com isso. Hoje, os brinquedos são baratinhos e todos têm acesso a esses brinquedinhos. A maioria usa pilha, que também não é legal por conta dos riscos para o meio ambiente. A “sorte” é que tudo quebra rápido.

    Um brinquedo completo, ao meu entender, é aquele que começa na vontade de brincar, na procura do material, na construção do brinquedo, e é finalizado na etapa do brincar.


    As escolas deveriam estimular mais a construção dos brinquedos?

    Sim. É muito comum nas escolas de educação infantil ter aquela amarelinha já riscada no chão. As crianças chegam, brincam e depois saem. É interessante que as crianças continuem riscando suas próprias amarelinhas e depois venham as etapas do brincar.


    Qual a importância de ter um espaço em casa para desenvolver os brinquedos por completo?
    O quintal é o território encantado da infância, é onde a criança pode experimentar o intimo com a natureza. Todo quintal tem pé de fruta, tem árvore para subir, tem pedacinho de terra. Ali ela tem ao mesmo tempo a experiência de brincar sozinha, com a natureza e também com os amigos.

    Eu acho que toda criança merecia ter um quintal, devia ser um direito previsto nos direitos da criança: “Tem de ter um quintal para toda criança” [risos]. Meu trabalho hoje nas escolas e nas creches é criar esses quintais, os espaços com presença de natureza. Tem escola no Brasil que não tem um sinal da natureza, tudo cimentado. Minha proposta hoje é repensar o espaço para que o quintal esteja presente.


    Que tipo de brinquedo costuma interessar mais as crianças que você conheceu nas suas pesquisas?

    A maravilha da infância está justamente na variedade de interesses. Tem os brinquedos cíclicos, que vêm de acordo com o tempo do ano, do vento, da chuva, e as crianças estão sempre interessadas no movimento mais sutil ou mais expansivo.

    Os menininhos ficam encantados com brinquedos novos, mas rapidamente voltam aos brinquedos habituais. Quando chega lá qualquer brinquedinho de algum amigo que mandam de longe, faz maior sucesso, independente da qualidade. Dali a pouquinho tem já está jogado de lado. Eles voltam para a areia, suas escadinhas, castelos, bolinhos de areia. Eles optam pela natureza. Se tiver água então, eles vão na hora.


    Como tem sido o interesse dos adultos em conhecer melhor a importância do brincar?
    Percebo muito isso em São Paulo.  As pessoas da maior cidade da América Latina estão muito saudosas desse contato com a natureza. A gente tem que perder para valorizar. Aqueles que vivem na natureza nem dão valor, não sabem que estão perto do céu. Mas hoje, São Paulo é uma referência muito grande para o Brasil e essa referência está expandindo nos grandes centros e a educação já começa a conversar sobre a importância disso outra vez.

    Então, a gente encontra mais interesse, embora a cultura da educação ainda seja voltada para escolas mais formais, menos para essa questão humana, a gente sente uma tendência na direção de uma educação mais aberta, mais voltada pro ser humano mesmo, não apenas para a mente.


    ENTREVISTAS DESSA EDIÇÃO ESPECIAL
    Adelso Murta Filho
    "O quintal é o território encantado da infância"

    Adriana Friedmann
    "As crianças estão sendo educadas por um outro mundo que foge aos muros da escola"

    Ana Lucia Villela
    "O apelo emocional do consumo atinge todo o mundo"

    Lydia Hortélio
    "Sonho com o tempo em que poderemos falar em integração nacional através da cultura da criança"

    Paulo Tatit
    "É importante que a criança seja impregnada com o que há de melhor da sua cultura"

    Susan Linn
    "Arte, religião e descobertas científicas são todas enraizadas na nossa capacidade de brincar"

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