• "A gente também come pelos olhos"
    Entrevista com Martha Paschoa
    02/06/2009

    ESPECIAL TRANSTORNOS ALIMENTARES E OBESIDADE INFANTIL
    Martha Paschoa dirige a empresa Comer e Aprender, que planeja e opera os serviços de alimentação e educação nutricional em escolas particulares de São Paulo. Com mais de dez anos de experiência, ela observa que as cantinas das escolas têm se tornado cada vez mais apelativas. “As vitrines te engolem”, exclama.

    Sua empresa trabalha com um programa amplo e gradual de educação, que tem como objetivo central mudar hábitos alimentares pouco saudáveis. Nesta entrevista ao Projeto Criança e Consumo (CeC), Martha diz que um de seus maiores desafios é atrair a atenção das crianças para as refeições balanceadas ao mesmo tempo em que compete com os recursos sedutores da comunicação mercadológica de alimentos dirigida ao público infantil.  

    Quais são as principais resistências dos alunos quando se propõe uma mudança nos serviços de alimentação nas escolas?


    As crianças e os adolescentes de hoje têm muito acesso à informação, por isso não adianta mais falar “não pode porque não pode”. A nossa luta é para que a criança tenha condições de, no futuro, ser independente em suas escolhas alimentares. Logo que mudamos o cardápio, há grande resistência, com frases do tipo “ah, mas a gente não come isso” e “eu quero batatinha frita”. O trabalho é feito aos poucos e, com o tempo, tanto os alunos quanto os professores acabam se habituando às frutas e optando pelos alimentos saudáveis nos intervalos.

    Quando foi que as crianças passaram a comprar o lanche na escola?


    As escolas sempre tiveram ponto de venda. A diferença é que antigamente esse ponto de venda era para vender o sanduíche de mortadela. Agora ele está repleto de chocolates, chicletes, salgadinhos, refrigerantes. A questão é que a nossa alimentação está mudando. Isso não é necessariamente ruim, precisamos nos adequar a essas transformações. Hoje, muitos alimentos são industrializados e os naturais já não são tão consumidos como antes, além de estarem mais caros.

    Como manter hábitos alimentares saudáveis com tantos apelos por consumo de produtos pouco nutritivos?

    A nossa orientação é sempre no sentido do bom-senso. O suco de caixinha, por exemplo, é mais fácil para mandar na mochila da criança. Já em casa, não custa nada fazer o suco natural. O consumo do suco de caixinha, que tem grande quantidade de açúcar, não pode se tornar um hábito. A mesma coisa acontece com o final de semana. Essa história de “liberar” o consumo aos sábados e domingos não faz sentido. Liberar por quê? Ninguém está sofrendo. Se os próprios pais encaram a alimentação saudável como algo restritivo, a criança também vai assimilar dessa maneira.

    Há muita publicidade nas cantinas das escolas? Isso tem impacto nas crianças?

    Sim, e tem bastante influência, pois condiciona o consumo. Se você chega na lanchonete da escola e vê uma geladeira da Coca-Cola, já está claro que o incentivo é pelo consumo do refrigerante e não da água ou do suco. É muito apelo, as vitrines de engolem. A gente também come pelos olhos. É claro que a embalagem colorida das balas e dos chocolates é muito mais atrativa do que o sanduíche natural.

    O que não poderia faltar na alimentação de uma criança até os 12 anos de idade?

    Vitaminas e fibras.

    Qual o problema de não ter esses nutrientes no organismo?

    Com a deficiência de vitaminas, minerais e fibras, o intestino não funciona, a pessoa tem uma série de problemas que afetam o presente e o futuro.

    Como você avalia o índice de obesidade infantil?

    Está muito alto. O excesso de peso em crianças de sete a dez anos de idade gira em torno de 40% nas escolas brasileiras. Quando a criança está na idade pré-escolar, se alimenta mal e come pouco. Já dos sete aos dez, ela vai à lanchonete da escola e passa a gostar de se alimentar. É quando ela adquire mais autonomia para escolher o que quer comer porque ganha a mesada. E quando as opções são pouco nutritivas, acaba influenciando negativamente na formação dos hábitos alimentares.

    Dar dinheiro para a criança se alimentar na escola pode ser um problema? Como a Comer e Aprender lida com essa questão?

    Depende de que estágio está o projeto. A ideia é sempre mudar aos poucos. Nas escolas que têm alimentação em período integral, a criança acaba almoçando e lanchando, e a gente consegue fazer um pacote balanceado. Temos também o esquema do cartão, no qual os pais colocam um crédito e acompanham pela internet como o filho gasta todos os dias. Isso é legal porque a família consegue observar os hábitos na escola e em casa.  Afinal, não adianta interferir apenas em um ambiente. Se a criança passa no mínimo quatro horas do dia na escola, é interessante saber como ela se alimenta lá. Por isso defendemos a escola como um ambiente super importante para trabalhar a orientação nutricional, porque é ali onde as crianças ficam pelo menos 13 anos da vida delas.
     
    No começo, eu acreditava que o caminho era trazer os pais para dentro da escola para ensinar como alimentar bem os filhos.  Mas me surpreendi muito porque o perfil da família brasileira mudou. É a mãe que separa do pai, casa de novo e aí tem outros filhos, sai para trabalhar, não tem tempo para nada. Para fazer com que os pais aparecem nas reuniões pedagógicas já é difícil, imagine traze-los para falar de nutrição? Então, resolvi investir nas crianças, porque elas levam a mensagem para dentro da família e passavam a fazer exigências. “Na escola, eu tomo suco de abacaxi batido com hortelã.”

    Hoje existe um apelo publicitário muito grande e um discurso subliminar de que a comida saudável é chata. Como atrair a atenção da criança para a alimentação balanceada?

    Na verdade, o que a gente faz é tentar tornar atrativo aquilo que a gente quer que eles consumam. Então, a fruta não pode ser colocada de qualquer jeito. Tem de estar bonitinha no potinho. Um dia, no kit, o mamão vai em bolinha, no outro vai quadradinho, no outro dia vai o mamão com o melão. Além disso, existem outros apelos que dão resultado. A bandeja vermelha, por exemplo, chama mais a atenção e dá ideia de algo alegre, de uma refeição gostosa. É preciso resgatar o prazer de comer e valorizar o alimento.

    Discordo das escolas que tem self-service, por exemplo. Uma criança, que ainda não tem discernimento nenhum, chegar e começar a se servir não tem cabimento. A não ser que você tenha um projeto de educação nota mil. Primeiro, porque eles misturam todos os sabores e aromas numa montanha. Não comem metade. Então, é tudo errado. Não é fast-food. Eu já vi professora de educação infantil ligar a televisão dentro da sala de aula para que as crianças dessem sossego na hora do lanche.

    Qual é o problema de colocar a criança em frente à TV na hora da alimentação?


    Ela perde totalmente a noção do que está consumindo. Ela presta atenção apenas na televisão. O que eu sempre explico para as crianças é que o estômago também gosta de assistir à TV. Então, se comemos na frente dela, o corpo esquece de trabalhar e não digere os alimentos. No caso do adulto que come em frente à televisão, o risco é o da obesidade, porque ele come uma quantidade muito maior do que deveria ingerir sem perceber. A hora da alimentação é a hora da alimentação.

    Que percepção você tem da indústria de alimentos infantis?

    Acho que a indústria poderia fazer muito mais pelas crianças. Questiono muito porque acho que eles deveriam utilizar todas as tecnologias e todo o conhecimento que eles têm para produzir alimentos mais saudáveis. Dá para diminuir a quantidade de sódio aqui, o açúcar ali e começar a produzir alimentos com essa preocupação. Mas a gente não vê muito essa boa vontade.

    Você acompanha a Consulta Pública 71 da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária)? Acha importante regulamentar a publicidade de alimentos dirigida a crianças?

    Sim, acho. E também acho que as indústrias têm de ter um norte. O problema é que o Governo se esquece de dar os parâmetros. Em relação aos alimentos que contêm gordura trans, por exemplo, quem sabe o que é gordura trans? Como substituir essa alimentação?

    Mas a indústria não tem um corpo de nutricionistas, engenheiros de alimento?

    Acho que elas têm, sim, mas não são pessoas focadas nisso. Eles não têm essa visão da ciência e sim o foco no produto. Existem empresas como a Nestlé que têm o corpo técnico científico. Então, talvez fora do Brasil exista alguma coisa diferente do que vemos aqui.

    Vi uma orientação da Anvisa, por exemplo, sobre a obrigação de colocar as informações nutricionais nos rótulos de alimentos. Na minha opinião, foi uma grande conquista. O problema é que as quantidades eram as indicadas para um adulto. Então, houve a cobrança para que fosse colocada a orientação nutricional adequada a crianças. A Anvisa divulgou que uma criança de quatro anos tem de consumir, por dia, 400 miligramas de sódio. Isso não é um grama de sal por dia. Os parâmetros precisam condizer com a realidade. Não adianta colocar metas inatingíveis porque desanima.

    E a questão dos alimentos geneticamente modificados, eles podem trazer algum tipo de desvantagem para o consumidor?


    Há muito tempo a gente come transgênicos sem saber. E a questão é que não dá para evitá-los. Além de não existir alimentos para todas as pessoas, eles fazem parte da evolução da nutrição. Outra tendência forte são os alimentos funcionais, que trazem algum tipo de benefício à saúde além de nutrir o corpo. Acredito que a indústria possa usar os alimentos a nosso favor.

    Como evoluir na cadeia alimentar sem perder o prazer em comer?

    O problema é que muita gente já perdeu esse gosto. Tenho um exemplo bastante claro. É uma foto que uso em apresentações de uma maçã mostrando a língua para as pessoas. E é isso que acontece. Parece que o alimento está o tempo todo acusando as pessoas. Ou estamos comendo demais, ou de menos, ou estamos comendo mal, com muito agrotóxico, muito transgênico, muito açúcar, e assim por diante. Existe essa relação. A gente come e se sente culpado, dá alimento para a criança e se sente culpado, é uma coisa horrível.

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    "Espaço físico voltado a jovens não é lugar de publicidade"

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