• "A juventude está adoecendo"
    Entrevista com Paula Melin
    02/06/2009

    ESPECIAL TRANSTORNOS ALIMENTARES E OBESIDADE INFANTIL
    Paula Melin dirige o Nuttra – Núcleo de Transtornos Alimentares e Obesidade –, no Rio de Janeiro. Em seu cotidiano, ela trata adolescentes e jovens diagnosticados com anorexia e bulimia nervosa. O problema é cada vez mais recorrente na sociedade contemporânea e Paula afirma que a pressão sociocultural pelo corpo perfeito contribui para o aumento dos transtornos alimentaresno mundo.

    Nesta entrevista ao Projeto Criança e Consumo (CeC), ela lembra de uma pesquisa divulgada em 1999 pela antropóloga Anne Backer, da Harvard Medical School (EUA), nas ilhas Fiji, que identificou que 74% das adolescentes pesquisadas se sentiam muito grandes ou gordas. Na época, 15% admitiram ter causado vômito no intuito de controlar o peso. Um detalhe importante do estudo: esses números alarmantes surgiram simultanemente à chegada da televisão na região.

    Qual é a definição de transtorno alimentar?

    São alterações do comportamento alimentar que incluem dois diagnósticos específicos, que são a anorexia nervosa e a bulimia nervosa, e quadros parciais, que inclui o comer compulsivo. Tanto na anorexia como na bulimia, o aspecto central das duas doenças é que a autoavaliação está centrada no corpo. Assim, existe uma preocupação muito grande com o corpo e com a forma corporal. A anorexia caracteriza-se por uma recusa da alimentação e pela manutenção de um peso abaixo do mínimo adequado para a idade e a altura. A bulimia caracteriza-se por episódios em que a pessoa come muito mais do que o normal e depois tenta se livrar do alimento para evitar o ganho de peso. E aí ela encontra diversas formas de se livrar desse alimento: vômito, laxante, exercício. Não é obrigatório que seja vômito, ao contrário do que muita gente imagina.

    E a obesidade, ela faz parte desse grupo de doenças?

    Não. Dentro da CID (Classificação Internacional das Doenças), os transtornos alimentares estão classificados no capítulo das doenças psiquiátricas, ou seja, de síndromes mentais. A obesidade não é um transtorno psiquiátrico. Agora, se observarmos a população obesa, identificamos uma parcela grande que também sofre de compulsão alimentar. São aquelas pessoas que não conseguem seguir uma dieta, pois, quando começam o tratamento, depois de dois ou três dias apresentam um episódio de compulsão. Entre os obesos mórbidos a prevalência de um quadro de compulsão seria de quase 70%. Entre os obesos chega a até 40%.

    Quais são as principais causas dos transtornos alimentares?

    A Organização Mundial de Saúde tem uma definição muito bacana que diz que saúde é o equilíbrio bio-psíquico-social. Para você estar bem, é preciso estar com essas três áreas legais. Então, sempre que pensamos na causa de uma doença, mesmo de um resfriado, é necessário avaliar o todo. Se você está estressado e com a autoimunidade mais baixa, é provável que fique mais vulnerável ao vírus da gripe, por exemplo. Assim, em todas as doenças psiquiátricas deve-se pensar nesse tripé, que são fatores biológicos, psicológicos e sociais. No caso dos transtornos alimentares, do ponto de vista do fator biológico, a gente sabe que existe uma predisposição genética. Em uma família na qual alguém sofra de transtornos alimentares, a chance de que outro membro que tenha um parentesco de primeiro grau apresente problemas é maior do que na população em geral. Isso já está mais que comprovado, inclusive em gêmeos univitelinos [idênticos] a concordância pode ser de até 80%. Não bate nos 100% porque a doença não é apenas genética. Também existem fatores psicológicos individuais, levando-se em consideração o desenvolvimento emocional de cada criança até a adolescência e a dinâmica familiar. E existe o fator social, que é justamente essa pressão que existe hoje pelo corpo perfeito e magro, essa valorização extrema da aparência.

    Até pouco tempo essas doenças estavam muito relacionadas ao universo feminino, mas os homens também sofrem de transtornos alimentares?   

    A prevalência dessas doenças em homens está entre 10% a 20% dos casos no mundo. Por enquanto. Mas é preciso considerar algumas coisas. Esses casos têm sido cada vez mais identificados porque até pouco tempo as pessoas não procuravam tratamento médico. Aí em São Paulo, no Ambulim [Ambulatório de Bulimia e Transtornos Alimentares do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas], tem um setor especial para tratar de homens. Então, na medida em que você vai abrindo serviços de atendimento, isso facilita o acesso. Agora, também tem o lado do preconceito, de achar que é doença de mulher. Os rapazes têm até vergonha de falar e os próprios médicos às vezes nem pensam nesse diagnóstico para os homens. Assim, a doença ainda está sub-diagnosticada. O que se observa é que essas pressões socioculturais têm atingido muito os homens. Antes a mulher era muito mais cobrada em termos de aparência. Hoje, há um aumento do número de revistas de comportamento voltadas ao público masculino, de produtos, cosméticos e de artigos jornalísticos sobre estética. Está havendo esse movimento, o homem está sendo cada vez mais pressionado. E o número de casos aumenta, sim. Dessa forma, é preciso levar em conta duas coisas: a primeira é que hoje está se reconhecendo mais o problema em homens e a segunda é o resultado da pressão.

    As doenças manifestam-se da mesma maneira entre homens e mulheres?

    É muito parecido, mas tem algumas diferenças. No que diz respeito a consumo, a menina quer se adequar a determinado manequim de roupa. “Quero vestir 36, 38…40 já é um absurdo!” Os homens não falam tanto isso, eles falam mais em não ter gordura no corpo, em ter o ombro largo e a cintura fina.

    A anorexia está sempre relacionada a um valor ou a uma doutrina? Qual é o histórico da doença?


    A doença tem mais de 300 anos. Bulimia e anorexia têm históricos um pouco diferentes, mas dá para fazer um panorama geral. Os relatos eram poucos no fim de 1700 e durante os anos de 1800. No século 20, há um aumento significativo das doenças, especialmente depois da década de 60. Foi quando começou a aparecer aquelas modelos muito magras, como a Twiggy [top model britânica famosa na época]. Antes disso, nas décadas de 40 e 50, as atrizes eram mais exuberantes e curvilíneas. Depois, esse referencial estético muda.

    Existem estudos e pesquisas que relacionam o índice de surgimento dessas doenças com publicidade?


    Há um estudo da Anne Becker [antropóloga da Harvard Medical School] realizado nas ilhas Fiji, onde até o fim da década de 80 não havia eletricidade nem televisão. Nesse período também não havia casos de transtornos alimentares, o padrão de beleza era o da mulher mais cheia, com aquela coisa da maternidade, de ter anca larga, peitão. Com a chegada da televisão nas ilhas, muda o padrão de beleza, começa a se valorizar mais a magreza e a surgir casos de transtorno alimentar. Esse é uma demonstração clara. É óbvio que não é a única causa, mas tem uma influência forte. O importante de saber isso é que nós podemos intervir nas causas sociais, diferentemente das causas genéticas, por exemplo.

    Você consegue perceber esse tipo de influência nos casos que chegam até o Nuttra?


    É um pouco mais indireto. Muitos pacientes chegam aqui dizendo que querem ficar iguais a fulano da novela e tal. A coisa da comparação é muito forte. Mas tem outro estudo muito interessante feito nos EUA que pegou universitárias sem nenhuma patologia e aplicou um questionário para identificar a autoestima e o fator depressivo. Depois esse grupo foi divido em dois: um grupo foi exposto a revistas neutras, de carros, notícias, etc, e o outro foi exposto a revistas femininas. Por fim, aplicou-se novamente o mesmo questionário. Nas pessoas expostas às revistas neutras, não houve alteração de score [pontuação]. Nas moças expostas às revistas femininas, houve uma diminuição do score de autoestima e um aumento do score de depressão. Isso só de estar exposto! Esse dado é muito importante.

    A minha tese de doutorado foi baseada em uma pesquisa em que entrevistei quatro mil adolescentes do ensino médio e mil jovens do primeiro ou segundo ano da universidade. Eu apliquei um questionário para identificar as pressões socioculturais, sem falar de peso e forma. E, no verso do questionário, a pessoa colocava o nível de satisfação com o corpo, em que tinha de marcar onde ela estava e onde ela queria estar em relação ao corpo dela. Descobri que quanto mais a pessoa se importa, quanto maior é a pressão sociocultural, maior é também a insatisfação com o corpo e pior é o padrão alimentar. É uma co-relação nítida. Eu não estava procurando doença, mas apenas informações sobre a satisfação com o corpo e o padrão alimentar, no qual perguntava se a pessoa escolhia o alimento com base no teor de caloria, etc. Acontece que fazer dieta é um fator de risco para transtorno alimentar. E ¼ das pessoas que fazem a dieta patológica, que é a dieta radical, desenvolve transtorno alimentar. Então, se os jovens estão com essa mentalidade de dieta, eles estão num risco elevado de desenvolver transtorno alimentar. É uma juventude que está adoecendo. E que vai adoecer mais por causa dessa pressão toda. 

    Tanto a anorexia como a bulimia atingem principalmente jovens, mas há uma diminuição da faixa etária de pessoas que apresentam essas doenças?

    Noto na clínica, mas não tenho dado para afirmar. Eu não trabalho com crianças, apenas encaminho os casos para outras instituições. Mas existem crianças com transtorno alimentar e estudos norte-americanos mostram que há, sim, uma diminuição da faixa etária, atingindo crianças de 10 anos de idade. A anorexia tem dois picos, que são de 12 a 14 anos e depois de 16 a 18. A bulimia é mais tardia, a partir de uns 15 anos. O que eu noto aqui na clínica é que temos recebido cada vez mais casos no início da adolescência e até de pré-adolescentes de 11 anos.

    E com relação às classes sociais, todas são atingidas pelo problema?

    Todas são atingidas igualmente. Antes se achava que as doenças atingiam mais a classe alta porque, na verdade, os diagnósticos eram feitos em clínicas, e a população não tinha acesso. Na medida em que fomos abrindo portinhas de atendimento à população, as filas foram aumentado. Hoje, com essa cultura globalizada, o problema se reflete em todas as classes sociais. O que muda é o acesso à saúde.

    Como é feito o tratamento? Existe cura?


    É preciso que seja feito um tratamento multidisciplinar, com uma equipe que envolva nutricionista, psicólogo e médico que seja no mínimo um psiquiatra, dependendo do quadro. No caso de crianças e adolescentes, nós envolvemos a família no processo de tratamento. É um tratamento caro, que envolve muitos profissionais. É possível conseguir remissão total dos sintomas, mas é muito difícil.

    Qual é o maior desafio em relação ao tratamento?


    O grande problema hoje é que os planos de saúde não cobrem o tratamento de transtornos alimentares porque estão desobrigados a cobrir as doenças psiquiátricas. Mas a anorexia e a bulimia não são apenas doenças psiquiátricas. E, mesmo quando os planos cobrem, eles cobrem uma consulta por mês apenas com o psiquiatra e não pagam o psicólogo. Sem psicólogo o tratamento não funciona! No Rio, tem apenas um lugar com atendimento público, aí São Paulo tem dois lugares, no Sul também tem... Mas no resto do Brasil esse atendimento público não existe. Uma paciente minha criou uma associação, chamada Astral, e está recolhendo assinaturas para tentar mobilizar o governo nesse sentido.

    Há dados sobre quantos casos foram fatais no Brasil?

    Todos os dados que eu te passar serão dados internacionais. A mortalidade vai de 5% a 20% dos casos, quando falamos de mortalidade a longo prazo. Porque assim que é feito o diagnóstico, muitas vezes a pessoa não corre risco de morte de imediato, mas já apresenta complicações de saúde, como a osteoporose, as arritmias cardíacas, os problemas renais, etc. E as principais causas de morte são as arritmias cardíacas e os suicídios. 

    ENTREVISTAS DESSA EDIÇÃO ESPECIAL
    Ana Botafogo
    "O corpo pode determinar os hábitos de uma nação"

    José Augusto Taddei
    "Alimento é afeto, cultura, humanidade"

    Maria José Delgado Fagundes
    "Espaço físico voltado a jovens não é lugar de publicidade"

    Martha Paschoa
    "A gente também come pelos olhos"

    Paula Melin
    "A juventude está adoecendo"

    Rosa Célia
    "Criança não é adulto pequeno"

Topo

Permitida a reprodução para fins educativos e de informação, com indicação da autoria da
matéria e do site do Instituto Alana, vedada qualquer utilização comercial ou com fins lucrativos.

©Instituto Alana 2002 - 2010

Problemas com o site: webmaster@alana.org.br.

Focusnetworks - Sua Agência de E-Business, Web 2.0 e Inovação