• O consumismo na sexualidade infantil - Maria Helena Masquetti

    “Vocês não imaginam a que tive de me submeter. Tenho um corpo de 18 anos, mas uma alma velha”. Este é um dos depoimentos de uma adolescente citado no plano do Comitê Nacional de Enfrentamento da Violência Sexual Infanto-Juvenil em referência ao Relatório da CPMI 2004. Discutindo a questão, o Jornal Estado de S. Paulo publicou dados, do mesmo comitê, nos quais São Paulo aparece como o penúltimo Estado em número de denúncias sobre abusos sexuais contra crianças e adolescentes. Uma das hipóteses levantadas para isso, na matéria, é a de que a precariedade da atuação da rede pública na identificação e solução dos casos desestimula os cidadãos a denunciarem.

    Isto faz pleno sentido com tudo quanto se sabe sobre os descuidos com a infância. Porém, merece atenção uma outra provável razão para o baixo número de denúncias: a banalização da sexualidade e da violência pela comunicação mercadológica e pela mídia em geral. Quem já não viu na TV uma apresentadora perguntando a uma criança pequena exposta ao seu auditório: “Você está namorando?” E quem já não ouviu uma celebridade apelar, em um comercial de maquiagem para crianças: “Fique linda como eu!”. Sem atentar para a gravidade do abuso, assistimos, sem denunciar, a este atropelamento explícito da infância.

    O impulso sexual, se não for devidamente administrado, pode provocar graves estragos. No entanto, quanto mais se encurtar a infância a fim de transformar rapidamente a criança em consumidora, menos tempo ela terá para desenvolver as barreiras psíquicas necessárias à contenção do instinto. E quanto mais ela for convencida de que a felicidade está nos produtos e serviços anunciados e não em seus próprios valores, mais fácil será trocar sua genuinidade por uma “pedra falsa, um sonho de valsa ou um corte de cetim”, tal como diz a música.

    Infelizmente, ajudamos a banalizar a sexualidade quando elogiamos o comercial onde mulheres representam garrafas de cerveja servidas às dúzias. E perdemos a noção do horror quando achamos graça no comercial de celular onde uma garotinha de sete anos discute sua relação amorosa. A experiência do amor e da proteção são fundamentais para o desenvolvimento do sentimento de empatia. Colocar-se no lugar do outro é primordial para a construção de uma sociedade mais justa e mais humana. O futuro de nosso planeta depende disso.

    Diferentemente do desencanto que demonstra a menina citada no começo deste texto, temos que dar às nossas crianças razões para chegarem aos dezoito anos sentindo na alma todo o frescor dessa idade e o desejo de replicar o respeito e a proteção.

    Jornal da TardeA opinião de, 31/12/2009 



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